A torre da alegria

 A torre lúgubre ficava naquela clareira a muito tempo, como um espinho pronto para envenenar ao simples toque. De base larga, superfície enrugada sem acabamento, vai se estreitando a medida que sobe aos céus como um fenômeno antinatural. Próximo as únicas janelas daquela estrutura, que ficam no topo, uma sombra se distingue sob o luar. A escalada é concluída com sucesso e o invasor acena pra os companheiros abaixo de forma positiva, demonstrando confiança. Será uma missão fácil já que o lugar deve estar abandonado a pelo menos um milênio. O antigo morador era um feiticeiro poderosíssimo, dono de uma riqueza incalculável, mas já deve ter morrido a séculos. Nem mesmo elfos vivem tanto e tesouros devem ser pilhados.


É noite, quando o ladrão ergue uma tocha com uma mão e desembainha um punhal , temendo que aquilo seja um covil de monstros. Portas são abertas e mobílias reviradas. A poeira o faz espirrar e o cheiro acre de uma das salas faz seus olhos lacrimejar. O lugar parece abandonado e aparentemente não possui riquezas e quando pensa em descer para convidar os amigos para aquela decepção, uma sala o surpreende: Em um pedestal há algo de valor para os seus olhos, algo que destoa daquele ambiente decrépito, uma máscara de prata com lágrimas de ouro que caem estaticamente de olhos vazados. Uma obra- prima que teve certeza que seria só sua e que o grupo divida qualquer tranqueira que encontre por ali depois! Mas antes de esconder na sua armadura de couro ele encara o objeto e imagina de quem poderia ter sido aquilo? De um rei? Um imperador? Quem sabe de um deus? Como seria colocar algo tão valioso no rosto? Como seria olhar através daquele rosto?


Do lado de fora, o quarteto aguardava o caminho ficar livre. Teodus, o guerreiro; Shafira, a bruxa; Jenus, o clérigo e Olberet, o bardo. Todos já ansiosos com a demora, quando o portão se abre lentamente revelando a escuridão interior.





- Ascelius?- Perguntou Shafira, observando aquele breu. O grupo se entreolhou, aproximando-se com cautela. Silêncio total. Teodus andava e enquanto sacava a espada lentamente ficou com a visão turva por um liquido que percebeu ser vermelho, olhou de lado e viu a queda do corpo decapitado de Olberet. Ao grito de Shafira, um golpe o lança até a arvore mais próxima, partindo-a ao meio tamanho a força do impacto, desorientando-o. Ainda atordoado, levanta-se e cospe sangue no chão, procura a sua espada e a encontra aos pés de uma criatura baixa, truculenta, bípede com braços aracnídeos de feições humanas, mas com a boca costurada, o corpo todo sujo de sangue. O rosto liso como o de um boneco de porcelana e os olhos, aqueles olhos o fizeram tremer e ficar sem ar. Olhos de tristeza, olhos de dor, olhos de desespero,olhos de arrependimento, os malditos olhos de um amigo!


Do alto da torre uma figura humana decrépita observa a cena macabra. A criatura lá embaixo empala o último visitante que fica suspenso em agonia por alguns segundos e depois é dilacerado por seis patas monstruosas. O espectador de orelhas pontudas carcomidas pelo tempo e de dentes podres se diverte com a cena. No mais alto cômodo da torre da agonia, retorna aos seus aposentos, à escuridão, ao esquecimento.

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